O artigo de João Moreira Salles, na revista Piauí, sobre a palestra do matemático Michael Atiyah no Instituto de Matemática Pura e Aplicada é sensacional.
Começa assim:
" Deus não faz Matemática vagabunda - uma convocação para decifrar a máquina do mundo
Não eram nem 17h03 nem 16h59, mas precisamente 17h, quando César Camacho, diretor do Impa – Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada –, tomou o microfone: “É uma honra receber aqui o professor Michael Atiyah, que como vocês sabem é ganhador da Medalha Fields e do Prêmio Abel. O título da palestra dele é Da Física Quântica à Teoria dos Números: Um Geômetra Explora o Universo. Muito obrigado.”
Na plateia, alguém comentou com o vizinho: “Só duas coisas começam na hora no Brasil, jogo no Maracanã e palestra no Impa.” Obrigações com a tevê explicam a pontualidade do Maracanã; no caso do Impa, trata-se tão somente de rigor, um dos bens mais cultivados por ali.
O inglês Michael Atiyah é um senhor baixo, calvo, rechonchudo e extremamente jovial. Se disser que está chegando aos 70, ninguém objetará. (Ele está com 81.) Na beira de um campo de futebol, seria confundido com o médico Lídio Toledo, aquele da Seleção Brasileira. Numa boa churrascaria, poderiam tomá-lo por maître, e ele provavelmente não ligaria se lhe pedissem para trazer logo a fraldinha. A etiqueta, porém, recomendaria pingar um Sir antes do seu nome, pois em 1983 a rainha Elizabeth II o honrou com o título.
Ali no Impa, em todo caso, a real condecoração impressionava bem menos do que a Medalha Fields, a láurea mais prestigiosa da matemática. Atiyah ganhou a sua em 1966, aos 37 anos, pela contribuição que deu à topologia algébrica, área que, em síntese, descreve maneiras de torcer o espaço.
Ele foi logo ao ponto: “Nos últimos trinta anos tem havido uma interação cada vez maior entre a matemática e a física. Minha palestra é sobre isso: física quântica, teoria dos números e o universo. É o pacote completo. E, quando digo universo, refiro-me não apenas às coisas concretas, mas também ao mundo das ideias.” Um garoto de short e chinelo no qual se lia Full Tilt Poker (um dos maiores sites de pôquer do mundo) inclinou o corpo para a frente.
Atiyah, quando fala, lembra um personagem de filme da BBC. Parece estar com um ovo na boca. Suas frases aceleram do meio em diante, como se as palavras, entediadas com o andar da carruagem, decidissem apostar corrida para ver quem chega primeiro ao ponto-final.
Para ouvidos brasileiros, não é fácil. Benditos slides. Acionando a projeção, o matemático disse: “Gosto muito de citações.” Einstein era o autor das três primeiras: Quero saber como Deus criou este mundo. Não estou interessado nesse ou naquele fenômeno. Quero saber como Ele pensa. O resto é detalhe. Era a ambição. Em seguida, veio o espanto: O aspecto mais incompreensível do mundo é o fato de ele ser compreensível. " (...)
Continua no site da Revista Piauí
Onde estão os filhos de Londrina?
5 dias atrás
0 comentários:
Postar um comentário